Você achava que estava fazendo a coisa certa: 14 jogos que transformam o jogador no vilão
Aviso: este artigo contém spoilers importantes de todos os jogos citados. Videogames costumam deixar bastante claro quem deve ser derrotado. Existe um inimigo, uma missão e algum motivo para acreditar que eliminar tudo o que aparece pelo caminho é a decisão correta. Alguns jogos, porém, usam justamente essa confiança contra o jogador.
Em certos casos, a missão aparentemente heroica termina provocando uma tragédia. Em outros, o protagonista descobre que sua própria história foi construída sobre crimes que ele não consegue lembrar. Há ainda aqueles que deixam a definição de “vilão” menos objetiva, colocando o jogador diante das consequências de ações que pareciam justificáveis poucas horas antes.
Por isso, nem todos os personagens abaixo são vilões tradicionais. O que aproxima esses jogos é a maneira como desmontam a ideia de que estamos necessariamente controlando o lado certo da história. Confira 14 jogos que transformam o jogador no vilão.
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1. Spec Ops: The Line
- Lançamento: 25 de junho de 2012
- Plataformas: PC, PS3, Xbox 360, Linux e Mac
Talvez seja o exemplo mais conhecido, mas continua sendo um dos que melhor exploram essa ideia. O capitão Martin Walker entra em Dubai acreditando estar cumprindo uma missão de resgate. Quanto mais avança, porém, mais ignora ordens, toma decisões por conta própria e transforma a operação em uma sequência de desastres.
O momento decisivo envolve o uso de fósforo branco contra soldados inimigos. Depois do ataque, Walker descobre que dezenas de civis também estavam na área. Em vez de aceitar imediatamente sua responsabilidade, ele direciona sua culpa para o coronel Konrad e continua procurando alguém que possa responsabilizar pelo que aconteceu.
O problema é que Konrad já estava morto. Boa parte da figura que Walker persegue existe apenas em sua mente. Ao chegar ao fim, o soldado que entrou em Dubai para salvar pessoas deixou um rastro de corpos enquanto tentava convencer a si mesmo de que ainda era o herói.
2. NieR Replicant ver.1.22474487139…
- Lançamento: 23 de abril de 2021
- Plataformas: PC, PS4 e Xbox One
O protagonista de NieR Replicant tem uma motivação difícil de questionar: salvar Yonah. Para isso, ele atravessa um mundo em ruínas eliminando criaturas conhecidas como Shades e, eventualmente, parte atrás do Shadowlord. Só que a segunda metade da história muda completamente o significado dessas batalhas.
Os Replicants não são os humanos originais daquele mundo. Eles foram criados como corpos destinados a receber novamente as almas da humanidade. Essas almas são justamente os Gestalts que o protagonista conhece como Shades. Quando alguns deles demonstram inteligência, medo ou preocupação uns com os outros, fica claro que muitas das criaturas mortas durante a jornada estavam muito longe de serem simples monstros.
A situação fica ainda pior porque o Shadowlord ajudava a manter os Gestalts estáveis. Sua morte contribui para o colapso definitivo do Projeto Gestalt. O protagonista consegue aquilo que queria no nível pessoal, mas suas ações ajudam a eliminar qualquer possibilidade de restauração da humanidade original.
3. OFF
- Lançamento original: 14 de maio de 2008
- Plataformas: PC; nova versão lançada para PC e Nintendo Switch em 15 de agosto de 2025
Em OFF, o jogador não é apenas alguém observando o protagonista: sua existência é reconhecida dentro da própria história. Você recebe a responsabilidade de guiar The Batter, um personagem que afirma ter uma “missão sagrada” de purificar o mundo.
Ele atravessa diferentes zonas eliminando espectros e derrotando os guardiões responsáveis por cada região. Tudo parece seguir a estrutura tradicional de um RPG. Até que é possível retornar às áreas “purificadas”. Elas estão praticamente mortas.
Aos poucos, fica evidente que a purificação defendida por The Batter significa apagar aquele mundo. Ele mata os guardiões, enfrenta a Queen, elimina Hugo e pretende chegar até o fim da missão independentemente das consequências. No confronto final, The Judge finalmente se volta para o próprio jogador e permite escolher entre continuar apoiando The Batter ou tentar impedi-lo. A missão sagrada era um extermínio.
4. The Witch’s House
- Lançamento original: 2012
- The Witch’s House MV: 30 de outubro de 2018
- Plataformas: PC, PS4, Xbox One e Nintendo Switch
Durante praticamente todo o jogo, parece que estamos controlando Viola, uma menina de 13 anos presa em uma mansão pertencente à bruxa Ellen. O objetivo é simples: sobreviver às armadilhas da casa e escapar. O final muda completamente essa interpretação. A menina controlada pelo jogador não é Viola. É Ellen.
Antes dos acontecimentos do jogo, a bruxa usou magia para trocar de corpo com Viola. Isso significa que a figura monstruosa que persegue o jogador durante os momentos finais é, na verdade, a verdadeira Viola tentando recuperar o próprio corpo.
Dependendo do final, Ellen consegue escapar usando a aparência da amiga enquanto Viola, presa no corpo debilitado da bruxa, tenta desesperadamente explicar a verdade. O pai de Viola não reconhece a filha e mata quem acredita ser a bruxa antes de partir com Ellen. O jogador passa horas ajudando justamente a pessoa responsável por toda a situação.
5. Mouthwashing
- Lançamento: 26 de setembro de 2024
- Plataforma: PC; versões para consoles estão em desenvolvimento
Mouthwashing inicialmente apresenta a tripulação do cargueiro espacial Tulpar após um acidente que deixou o capitão Curly gravemente ferido e os sobreviventes presos sem possibilidade realista de resgate. A narrativa, no entanto, não segue uma ordem cronológica e alterna principalmente entre Curly e Jimmy. Aos poucos, a imagem inicial do acidente começa a ruir.
É revelado que Jimmy foi responsável por lançar a Tulpar contra um asteroide em uma tentativa de assassinato-suicídio. Antes disso, ele havia abusado sexualmente de Anya e descoberto que ela estava grávida. Quando percebe que poderia finalmente ser responsabilizado por seus atos, prefere destruir a nave e todos que estavam nela.
Grande parte das ações posteriores de Jimmy é apresentada por ele próprio como uma tentativa de “assumir responsabilidade”. Na prática, ele continua tomando decisões que machucam as mesmas pessoas que afirma querer salvar. Mouthwashing coloca o jogador dentro da perspectiva de alguém desesperado para construir uma versão de si mesmo na qual ainda existe alguma justificativa.
6. Shadow of the Colossus
- Lançamento original: 18 de outubro de 2005
- Plataformas: PS2, PS3 e PS4
Wander entra na Terra Proibida com um único objetivo: ressuscitar Mono. A entidade conhecida como Dormin promete realizar o desejo, desde que ele destrua dezesseis Colossi. É exatamente isso que fazemos.
O jogo deliberadamente evita transformar essas criaturas em monstros convencionais. Diversos Colossus não demonstram qualquer hostilidade até serem atacados, e cada vitória deixa Wander fisicamente pior. A explicação só aparece tarde demais.
Os Colossus funcionavam como recipientes para fragmentos de Dormin. Ao matar cada um deles, Wander estava reunindo novamente a entidade que havia sido selada. Depois do último confronto, seu corpo acaba servindo para restaurar Dormin. Mono realmente volta à vida, mas o preço dessa ressurreição envolve matar dezesseis criaturas, violar uma terra proibida e libertar exatamente aquilo que havia sido dividido para permanecer aprisionado.
7. Braid
- Lançamento: 6 de agosto de 2008
- Plataformas: Xbox, PlayStation, PC, Nintendo Switch e dispositivos móveis, dependendo da versão
Braid parece brincar deliberadamente com uma das histórias mais antigas dos videogames: um homem tentando resgatar uma princesa. Tim atravessa diferentes mundos manipulando o tempo enquanto procura a mulher que perdeu. A narrativa dá a entender que ele cometeu erros no relacionamento e gostaria de voltar atrás para consertá-los. Então chega o último estágio.
Inicialmente, a princesa parece estar ajudando Tim enquanto ambos escapam de um cavaleiro. Quando a sequência é observada na direção correta do tempo, acontece exatamente o contrário. A mulher está fugindo de Tim, ativando obstáculos para mantê-lo longe enquanto o cavaleiro tenta resgatá-la.
A figura que imaginávamos ser o herói atravessando mundos para salvar alguém era justamente a pessoa da qual ela queria escapar.
8. Amnesia: The Dark Descent
- Lançamento: 8 de setembro de 2010
- Plataformas originais: PC, Mac e Linux; posteriormente recebeu versões para consoles
Daniel acorda no Castelo de Brennenburg sem memória e encontra uma mensagem deixada por ele mesmo. A instrução é encontrar Alexander e matá-lo. Naturalmente, tudo indica que Alexander é responsável pelo que aconteceu. Ele realmente tem uma enorme parcela de culpa, mas Daniel não é simplesmente uma vítima.
Antes de apagar a própria memória, participou de sessões de tortura e assassinatos usados para produzir vitae. Alexander inicialmente o convenceu de que as vítimas eram criminosos perigosos e que aquilo era necessário para protegê-lo da entidade conhecida como Shadow.
Daniel continuou mesmo quando as justificativas começaram a desmoronar. Quando finalmente compreendeu a dimensão do que havia feito, não conseguiu lidar com a culpa e tomou a poção que apagaria suas lembranças. O personagem indefeso que encontramos no começo existe justamente porque sua versão anterior preferiu esquecer o homem que havia se tornado.
9. END ROLL
- Lançamento: 2 de junho de 2016
- Plataforma: PC
END ROLL é um dos exemplos menos conhecidos desta lista e também um dos mais diretos. No começo, Russell parece apenas um garoto levado para participar de um estranho experimento. Em seguida, ele passa a viver em uma cidade aparentemente agradável, conhece novos amigos e começa uma rotina típica de RPG. Só existe um detalhe: aquele lugar não é real.
Russell é um jovem condenado à morte por uma série de assassinatos. O experimento Happy Dream foi desenvolvido para fazê-lo experimentar culpa, algo que ele aparentemente não conseguia sentir. Pessoas, lugares e situações do mundo dos sonhos passam a representar suas vítimas e seus crimes.
Quanto mais o jogador explora e encontra eventos ligados ao nível de culpa, mais difícil fica separar as aventuras aparentemente inocentes de Russell daquilo que ele fez antes do início do jogo. A história não revela apenas que estávamos controlando alguém perigoso; todo o RPG existe para confrontá-lo com essa realidade.
10. Star Wars: Knights of the Old Republic
- Lançamento original: julho de 2003
- Plataformas: Xbox, PC, Mac, iOS, Android e Nintendo Switch
O protagonista de Knights of the Old Republic começa como praticamente qualquer personagem criado para um RPG. Seu passado é pouco conhecido e cabe ao jogador definir sua personalidade por meio das decisões tomadas durante a campanha. Até a revelação no Leviathan.
O personagem é Revan, antigo Lorde Sith que comandou uma guerra contra a República. Depois de ser capturado, teve suas memórias apagadas pelo Conselho Jedi e recebeu uma identidade diferente. Isso não significa que o jogador precise continuar sendo um vilão.
Esse é justamente o ponto mais interessante da revelação. Depois de descobrir a verdade, é possível rejeitar o passado e permanecer ao lado dos Jedi ou abraçar novamente a identidade de Darth Revan. O herói que parecia destinado a impedir os Sith era, poucos anos antes, uma das figuras mais perigosas da galáxia.
11. Prototype
- Lançamento: 9 de junho de 2009
- Plataformas: PC, PS3, Xbox 360, PS4 e Xbox One
Alex Mercer acorda em um necrotério sem memória, descobre que possui poderes sobre-humanos e começa a investigar quem transformou sua vida daquela maneira. É uma estrutura praticamente perfeita para uma história de vingança. Só que existe um problema ainda maior do que a amnésia: o Alex que controlamos não é realmente Alex Mercer.
O Mercer humano trabalhava na Gentek e roubou uma amostra do vírus Blacklight quando percebeu que seria eliminado. Cercado por agentes em Penn Station, ele quebrou deliberadamente o recipiente e liberou o vírus em um local cheio de pessoas. Depois de sua morte, o próprio Blacklight consumiu o cadáver e formou uma entidade que acreditava ser Mercer por carregar suas memórias.
Portanto, o protagonista não é exatamente o homem que provocou o desastre. Ainda assim, toda sua identidade foi construída a partir dele, e a investigação sobre “quem fez isso comigo?” termina mostrando que o verdadeiro Alex estava no centro da origem do surto.
12. Little Nightmares II
- Lançamento: 11 de fevereiro de 2021
- Plataformas: PC, PS4, PS5, Xbox One, Xbox Series X|S e Nintendo Switch
Mono passa boa parte de Little Nightmares II fugindo do Thin Man, uma figura alta e deformada associada às transmissões que dominam Pale City. No fim da jornada, Mono salva Six e os dois tentam escapar da Signal Tower. Durante a fuga, ela segura a mão do garoto por alguns segundos antes de soltá-lo deliberadamente.
Mono cai no interior da torre. Em vez de morrer, ele permanece ali enquanto o tempo passa. Seu corpo cresce, sua aparência muda e a última sequência revela aquilo que já vinha sendo sugerido: Mono se transforma no Thin Man.
O personagem que passamos o jogo inteiro tentando derrotar é uma versão futura do próprio protagonista. Ao tentar escapar dele, Mono completa os acontecimentos que garantem que um dia ocupará exatamente o lugar de seu perseguidor.
13. Silent Hill 2
- Lançamento original: 25 de setembro de 2001
- Plataformas originais: PS2, Xbox e PC; remake disponível para PS5 e PC
James Sunderland chega a Silent Hill depois de receber uma carta de Mary, sua esposa, que supostamente morreu anos antes. A viagem parece inicialmente uma busca por respostas. Silent Hill, entretanto, está fazendo James confrontar algo que ele próprio tentou esconder. Mary não morreu simplesmente por causa da doença. James a matou.
As motivações tornam a situação deliberadamente desconfortável e difícil de reduzir a uma única explicação. Ele sofria ao vê-la doente, queria encerrar seu sofrimento, mas também carregava ressentimento pela situação em que ambos viviam.
Muitos dos elementos encontrados na cidade estão relacionados à culpa e aos desejos reprimidos de James. Pyramid Head, sobretudo, funciona como uma representação de sua necessidade de punição. A história inteira muda quando percebemos que o personagem procurando a verdade é também o homem responsável pelo acontecimento que mais tentou esquecer.
14. Planescape: Torment
- Lançamento: 12 de dezembro de 1999
- Plataformas: PC; a Enhanced Edition também chegou a PS4, Xbox One, Nintendo Switch, iOS e Android
The Nameless One acorda em um necrotério sem memória e com uma característica bastante inconveniente: ele não consegue permanecer morto. Sua busca inicialmente parece ser apenas uma tentativa de descobrir por que é imortal. Conforme recupera partes de suas vidas anteriores, porém, encontra pessoas que foram enganadas, manipuladas ou destruídas por diferentes versões de si mesmo.
No final, descobre algo ainda pior. Sua encarnação original havia cometido crimes tão graves que acreditava estar condenado quando morresse. Buscando tempo para reparar seus pecados, pediu a Ravel que o tornasse imortal. O plano fracassou porque cada morte apagava parte de sua memória. Além disso, outra pessoa no multiverso morria sempre que ele ressuscitava. O personagem pode tentar ser melhor durante os eventos do jogo, mas precisa aceitar que sua existência atual foi construída sobre incontáveis vítimas.
No fim, ser o protagonista não significa estar certo
O recurso funciona justamente porque videogames acostumaram os jogadores a confiar nos objetivos apresentados. Se uma missão diz para eliminar determinada criatura, existe uma tendência natural de presumir que ela precisa ser eliminada. Se alguém pede para salvar uma pessoa, parece razoável acreditar que estamos ajudando.
Jogos como NieR Replicant, OFF e Shadow of the Colossus questionam essa confiança mostrando as consequências da missão. The Witch’s House, KOTOR, END ROLL e Amnesia escondem informações fundamentais sobre quem estamos controlando. Já Spec Ops: The Line, Mouthwashing e Silent Hill 2 colocam seus protagonistas diante de justificativas criadas para não encarar aquilo que fizeram.
Talvez seja justamente por isso que essas histórias permanecem interessantes depois dos créditos. A revelação não muda apenas quem era o vilão. Ela obriga o jogador a reinterpretar ações que ele próprio passou horas executando.
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📰 Notícia originalmente publicada em GameVicio
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